quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O sinal que ninguém (quer) vê

Provavelmente, você em algum lugar ou cidade, já deve ter visto centenas de ambulantes vendendo inúmeras coisas por aí.

Ossos do ofício?

Para alguns, a história é mais real do que parece.


O sinal que ninguém (quer) vê.

Wanderly Moreira, de 54 anos, nascido em Recanto da Roça (próximo à Barbacena), tem uma história incrível pra contar e ela é bem verdadeira.

Aos 8 anos de idade, ele vendia esterco na rua e entre os anos de 80 e 82, serviu ao exército. Comprou um caminhão e, infelizmente, perdeu tudo em um acidente: "de um dia pro outro, eu perdi tudo que eu tinha!". E  o que sobrou do caminhão, foi vendido pelo seu pai à um ferro velho.

Wanderly resolveu então voltar às origens como vendedor e seguiu para Belo Horizonte. Na capital, aos 24 anos, ele montou uma barraca de frutas na rua Espírito Santo (famosa na época por ter centenas de ambulantes): "Na época, tínhamos muita fartura e o dinheiro tinha valor! A gente era mais valorizado." Com a chegada do Aécio Neves ao governo, houve a retirada dos ambulantes do local para serem colocados em outro lugar e Wanderly, novamente, teve que mudar seu percurso: "Ele tirou todo mundo da rua e deu uma loja no shopping, que ficava ao lado do rio Arruda, mas esse rio era muito sujo e transmitia doenças, então não dava pra vender frutas em um local daqueles. Eu resolvi vender a minha loja e retornar à Barbacena."

Fonte: Google/Pesquisa | Site: rogeriocorreia.com.br

PS.: Procurando fotos, fontes e fatos sobre o ocorrido (Aécio retira ambulantes em Belo Horizonte), não há nenhum tipo de nota na internet sobre o acontecido.

Wanderly, após retornar à Barbacena, passou também por Juiz de Fora, logo morou 6 anos no Rio de Janeiro e agora, de volta à JF - morando há 2 semanas -, nos conta a sua história de vida:

"Eu também, infelizmente, aos 8 anos de idade, conheci a droga. Tem 2 anos que estou me recuperando, sem usar nada. Eu até tentei ir pro hospital, mas lá eles trocavam uma droga por outra droga e nunca resolviam o meu problema. Então agora, da última vez, eu troquei uma droga por outra droga que resolveu o meu problema, que é chamada Jesus. Eu fumava de 2 a 3 maços de cigarro por dia, e não fumo mais. Tudo Ele tem feito na minha vida. Eu participo de várias igrejas: católica, cristã. Eu participo da FÉ. Foram 42 anos usando drogas."

Eu, ao relatar, não contive a emoção perante o homem que ali em minha frente estava.

Mas, mesmo na luta diária, ele insiste: "A minha felicidade é saber que eu tenho um grande Deus que resolve os meus problemas. Eu nunca soube disso. Agora é que eu tô sabendo disso. Então eu não tenho problema.

Wanderly Moreira, 54 anos.

Perguntado pelo preconceito sofrido ao longo da vida, Wanderly afirmou: "A gente se torna uma classe baixa, você entendeu?! Antigamente, éramos a classe média. Hoje, não existe mais classe média. Ou é classe baixa ou é classe alta. As vezes a gente vai oferecer uma fruta e a classe alta menospreza a gente, faz questão de fechar o vidro na nossa cara, não dá atenção... acha que a gente vai roubar, assaltar... Acha que somos marginais.

"Meu sustento vem da rua. Do que eu vendo e tudo. Mas ano passado eu tive um problema de catarata nos dois olhos, e graças à um plantão de médicos que vai de Belo Horizonte pra Barbacena, eu fui operado pelo SUS. Uma vista foi operada em janeiro e a outra em fevereiro."
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Na semana passada, a prefeitura de Tiradentes promoveu uma campanha chamada "Cavalgada do Bem - Cavalheiros da Saúde", onde foram atendidos mais de 300 pessoas. Foram 12 médicos, entre as especialidades de cardiologia, ortopedia, pediatria, ginecologista, oftalmologia e clínico geral. A iniciativa veio do vereador Léo de Matos, que teve o apoio da prefeitura e de alguns comerciantes locais. A ação foi comandada pelo Dr. Jose Antonio Vieira e a maioria dos médicos, foram de Juiz de Fora. O dr. Marcio Mahait, consagrado oftalmologista em Juiz de Fora e que participou desse projeto, relata: "Foi uma ação totalmente solidária à Tiradentes. Atendi, pessoalmente, 60 pessoas. Eu fiz diversos exames assim como, cirurgias. E tudo totalmente gratuito às pessoas carentes. Foi um dia incrível para mim e para os meus colegas de profissão, e acredito que tenha sido para os pacientes que receberam diversos tipos de atendimento".
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Como eu paguei o INSS  - como autônomo - por alguns anos e nunca tive ajuda de nada, por causa desse problema das vistas, "eles me deram" uma ajuda de custo do Bolsa Família no valor de R$87,00 (oitenta e sete reais) pra me ajudar. Mas essa ajuda de custo é inferior a qualquer tipo de sociedade. Só dá pra eu comprar o meu material de higiene diária.

A vida de sustento do Wanderly, vem totalmente do que ele vende com suas frutas nos sinais. Atualmente, morando em uma casa de recuperação ao qual tem um custo de R$110,00 (cento e dez) por semana, ele afirma: "Na realidade isso é uma ajuda pra mim, lá tem tudo limpinho, comida de primeiro mundo, tem cama de banho, tem ajuda emocional e psicológica, é pra quem tem problemas com drogas e alcoolismo, e lá eles não nos dão remédios. Lá eles recuperam pela palavra de Deus. O remédio não cura ninguém. Se você for usar o remédio pra sair fora da droga, você vai se tornar outro drogado diferentemente da droga. Vai passar a ser dependente químico de farmácia e vai esquecer a droga que é a química do traficante.
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A clínica ao qual o sr. Wanderly se encontra, fica no Vale Verde. Mas até o presente momento, ainda não tive um contato mais real para saber um pouco mais sobre o seu funcionamento.
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''Eu fui pra continuar o tratamento e poder ajudar os amigos que passam ou passaram o mesmo que eu: são tantas pessoas que dormem em cima de papelão na rua por causa das drogas, as vezes ganha um trocado mas consome tudo com a química; é só pra deixar o traficante mais rico e ele pobre e viciado''. Conclui Wanderly.

Com a morte dos pais e já não tendo mais família em Barbacena, sendo os dois irmãos moradores de Juiz de Fora, Wanderly pretende ficar aqui por muito mais tempo: Wanildo, o irmão mais velho, é quem compra as frutas e dá ao ambulante para vender no sinal: "Eu não trabalho por conta própria, meu irmão compra as frutas no Seara e eu vendo aqui!"

"Eu quero pedir uma coisa: deixa a gente trabalhar a vontade, para que nós possamos ter condições de ganharmos o nosso dinheiro honestamente. Eu pago R$97,00 por ano pra trabalhar como feirante, mas existem lugares que eu não posso trabalhar então, eu tô pagando pra quê?! O certo seria se a gente soubesse certinho o lugar que a gente pode trabalhar todo dia, pra depois, voltar pra casa. Os políticos roubam milhões e a gente nem tem ideia mais do quanto já fomos roubados então, deixa a gente trabalhar. 

Segundo o site da prefeitura, a Feira Livre é um programa com o apoio da Prefeitura de Juiz de Fora por meio da Secretaria de Agropecuária e Abastecimento (SAA). A ideia é fomentar a participação dos pequenos produtores de Juiz de Fora e região no abastecimento e na oferta de produtos de alta qualidade à população.

Você pode acompanhar todo esse processo, através do link: Portal PJF.



POR MAIS OPORTUNIDADES

Wanderly Moreira, sem dúvidas, representa uma grande estatística de centenas de trabalhadores que, arduamente - faça sol ou chuva -, trabalha para o seu sustento de forma livre. É o caso de Brenda Cristina que atualmente, aos 24 anos, também trabalha no sinal.

"Eu trabalho desde os 14 anos de carteira assinada". Mesmo sendo artesã, com a crise financeira, Brenda se viu na busca por outras alternativas: "Eu faço crochê, biquíni, blusa, todo o tipo de vestuário. Também faço faxina se precisar. De noite eu faço crochê e de dia eu fico aqui no sinal panfletando, quando tem serviço. O Wanderley ganha mais do que eu. Um dia dele - vendendo morangos -, são 4 dias meus. Eu tô até pensando em vender morangos (risos).

Brenda, relata então sobre o seu trabalho como artesã: "Eu não tenho acesso à feiras, eu divulgo muito o meu trabalho na internet. Não tem muito sobre essa área de artesanato aqui em Juiz de Fora. Pra você participar da feira que acontece no Parque Halfeld, você tem que pagar um valor de R$180 a R$200,00 por semana.

"Eu queria muito sobreviver só da minha arte, mas não tenho suporte. Eu vejo na televisão que há muitas cidades que tem feiras livres, que não geram custo alto para o bolso do artesão, são várias pessoas que fazem várias coisas e dá muito certo. Aqui não tem valor. Não tem exposição. Quem exibe seus trabalhos na Av, Rio Branco por exemplo, junta um monte de trabalho e tem que pagar um valor altíssimo. Mas tem todo um entorno por volta do meu serviço: eu como trabalho com crochê, por exemplo, corro um risco grande de ter uma tendinite ou trombose. São muitos fatores e as estruturas são muito poucas".


Brenda Cristina, 24 anos.
A realidade entre 2 seres humanos tão diferentes mas, tão iguais em suas convicções.

Além do trabalho como artesã, a jovem, que busca por alternativas de ganhos financeiros, sofre demasiado preconceito enquanto trabalha no sinal: "Eu sofro muito preconceito machista, mas esse preconceito não vem apenas dos homens, vem, por incrível que pareça, das mulheres. Perguntam por qual motivo eu não to estudando, e é claro que ninguém gosta de ficar debaixo de sol, mas eu tô aqui porque não tive oportunidade de estudar. Eu poderia está fazendo algo como vender drogas ou me prostituindo, mas eu tô aqui, trabalhando honestamente. Eu não estou roubando de ninguém. Mas as pessoas vêem isso como uma coisa suja, como se eu não quisesse trabalhar. Tenho 7 anos de carteira assinada, mas não estou conseguindo um emprego. Um dia uma moça me disse que eu tô no sol porque eu quero, pois eu deveria ter estudado. Eu estudei. Eu tenho o ensino médio completo, o que eu não tive foi a oportunidade que, talvez, ela teve. Eu tive que trabalhar desde nova pra conseguir me sustentar. 

As pessoas acham que é só dizer: vai estudar menina, que tá tudo fácil, tudo bem, tudo resolvido.




Brenda, que como mulher, enfrenta o machismo no seu trabalho todos os dias, também faz parte de uma grande multidão de mulheres que, todos os dias, ouvem demasiadas piadas no trabalho, na faculdade e no dia a dia.


Você pode acessar e seguir ao trabalho da  Brenda através da página: BRENDA PALHA MODA PRAIA!

A luta, seja pela sobrevivência ou pelo respeito, é árdua e diária.

Leia mais sobre diversas análises do machismo no Brasil clicando AQUI, AQUI e AQUI!

Se você deseja saber mais sobre essas histórias, continue acessando ao blog. Com certeza, traremos cada vez mais, vozes da nossa sociedade à quem as procura ler.

Obrigada pela visita. Volte sempre.


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As entrevistas foram feitas de modo gradativas, afim de não atrapalharem Wanderly e Brenda, em seus respectivos trabalhos.
Eu comprei morango, com um desconto especial do sr. Wanderly e dei todo meu apoio - em forma de abraço - para Brenda.
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No Brasil, o dia 25 de agosto é tido como dia do feirante.
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Segundo estudo, MACHISMO é o preconceito mais praticado entre brasileiros.


FOTOS DO BLOG: Tarlis Araújo.

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